Tudo começou com um garoto inglês metido na aula de
meditação da mãe na esperança de aprender kung fu. Aos 11 anos, Andy Puddicombe
gostou da técnica, ainda que não fosse uma arte marcial, mas o entusiasmo não
sobreviveu à adolescência, quando esportes e festas se tornaram uma prioridade.
O que parecia evoluir como uma vida saudável sofreu um grande abalo aos 18
anos, quando quatro tragédias no intervalo de seis meses ocorreram: a meia-irmã
morreu num acidente de bicicleta, uma ex-namorada não resistiu a uma cirurgia
no coração e dois amigos foram atropelados e mortos por um motorista bêbado. De
pé no mesmo grupo,
Andy escapou por um triz
INICIANTES
PODEM USAR O HEADSPACE DE GRAÇA POR 10 SESSÕES DE 10 MINUTOS
O impacto
inicial do trauma se dissipou com o tempo, mas uma sensação incômoda persistiu.
Quando já era um estudante universitário em Bristol, Andy decidiu mergulhar em
si mesmo. O orientador da faculdade sugeriu Prozac, mas o rapaz estava decidido
a tornar-se monge.
Embarcou aos
22 anos para a Índia e iniciou um treinamento que incluía 18 horas de meditação
diária e celibato. A jornada o levaria ainda ao Nepal, à Tailândia, ao Tibete
e, por fim, à Rússia, onde ficou por quatro anos depois de ser ordenado. Lá mesmo, no início dos anos
2000, quando a vida monástica começava a trazer dúvidas, um encontro com
executivos do ramo do petróleo trouxe a epifania: e se a meditação fosse tirada
de seu isolamento e levada ao centro da vida moderna?
De volta à
Europa, Andy se fixou em Londres .. Fez algumas aulas de circo e acabou, na clínica que o contrataria para dar suas primeiras
aulas de atenção plena. A Inglaterra acabara de aprovar o uso do mindfulness
para o tratamento de depressão, mas não havia tantos profissionais de saúde
pública especializados na técnica - em uma pita- da complementar do destino, na
ocasião ele também conheceu sua atual mulher, Lucinda, uma fisioterapeuta.
Seus primeiros
alunos eram na grande maioria homens estressados por causa da crise financeira.
Meditação e vida moderna se encontraram, enfim, nessa audiência difícil, que
exigiu uma linguagem direta, sem misticismo. Na mesma época, aos 32 anos, Andy
conheceu o atual sócio, o publicitário Riéhard Pierson, e com ele fundou a Headspace,
em 2010. Inicialmente tratava-se de uma empresa que vendia aulas de meditação
presenciais. Mas a dupla logo recebeu pedidos para flexibilizar o formato. Foi
quando avoz de Andy começou a ser gravada em podcasts e, em 2012, se transformou
num amigável aplicativo para smartphones.
APERTE O PLAY Você precisa pagar para usar o free
trial do Headspace, mas os iniciantes podem testar o app de graça por dez
sessões. É um início suave para quem nunca meditou. O usuário é guiado pela voz
de Andy em sessões de apenas 10 minutos, que podem ser acionadas a qualquer
hora do dia (mas fixar um horário, sugere o professor, ajuda a criar uma rotina).
"Respire-fundo, sinta o encosto da cadeira nas costas, conte as respirações":
essas são as .primeiras orientações. Nada de religião nem grandes acrobacias mentais.
O mindfulness proposto pelo britânico começa simples e
básico antes de maiores
dúvidas surgirem, os
10 minutos
acabaram.
A aposta de
Andy e Riéhard é que esse tempo diminuto traga alterações pequenas mas
perceptíveis no humor. Para seguir viagem, o app oferece assinaturas pagas com
toda a biblioteca do Headspace disponível para o celular. As sessões duram até
60 minutos e têm objetivos precisos: lidar com a depressão, melhorar o foco no trabalho,
viver uma boa gravidez e sentir se mais feliz. Há também exercícios para comer
com mais atenção (e, portanto, menos e melhor) e andar de metrô sem stress,
No app, os
ensinamentos budistas aparecem em vídeos protagonizados por Andy ou por um
simpático mascote animado, um cérebro que vai ganhando músculos à medida que as
sessões se acumulam. As metáforas abundam, como a vida é uma rodovia, e os
pensamentos são os carros; você pode tentar embarcar em cada veículo ou apenas
sentar-se à beira da estrada para observar o movimento com calma. Em 2013,
poucos meses depois da mudança de sede para os Estados Unidos, Andy foi
diagnosticado com câncer de testículo.
"A
meditação me ajudou a lidar com o problema", declarou à época.
CRIE UMA ROTINA Hoje, cerca de 6 milhões de pessoas
usam o app, segundo dados da própria empresa. É muita gente convencida de que
um aplicativo pode beneficiar o cérebro, e o sucesso pode estar relacionado à
gamificação.
O uso de
elementos típicos de logos, como recompensas e competição, já se mostrou eficaz
para mudar hábitos em áreas tão diferentes como o esporte e o atendimento a
clientes. Aqui,
também, tem o
seu papel, enviando lembretes, parabenizando por dias consecutivos e dando
a chance de
dividir os avanços com amigos. Isso pode ser uma ajuda na formação de uma rotina
diária. "O lance sobre meditação é que falar sobre ela não adianta nada.
Apenas fazê-Ia traz resultados" , diz Andy em um de seus vídeos. Em outras
palavras, contratar seu serviço ou outros parecidos não vai promover nenhum
milagre mental. Mas talvez ajude bastante a manter o ritmo da prática.
FIQUE ATENTO
_________________________________________________________________________________
Embora atrativos, nem todos os aplicativos de mindfulness cumprem o que prometem. Em janeiro de 2016, o app Luminosity recebeu uma multa de US$ 2 milhões do governo americano por propaganda enganosa. Os anúncios da empresa continham palavras-chave como "demência", Alzheimer, "perda de memória", mesmo sem comprovar eficácia contra essas doenças. Em 2015, o aplicativo Headspace laçou o "pacote depressão", que foi contestado por pesquisadores especialistas em meditação pela falta de estudos científicos que avaliassem o método do app.
Nenhum comentário:
Postar um comentário